2009-12-20

e ainda resta...

sabe que dos teus detalhes me lembro pouco, como a tua mão caída na lateral do sofá e as tuas manias habituais, as quais eu me acostumei depressa e depressa também, esqueci. seus olhos já foram mais ardentes, seu jeito de falar já foi mais misterioso e cauteloso. hoje você parece vomitar palavras sem dó nem piedade, como se meu ouvido fosse penico, como se eu ainda tivesse que ouvir babaquices. eu lembro de você me ligar e ficar mudo do outro da linha e depois desligar e ligar em seguida, perguntando porque eu não atendia a merda do celular. eu sentia um prazer secreto em te ver ciumento, ainda que falsamente. certa vez estávamos sentados bebendo em um café turco na cidade e você folheava uma revista sem dar a mínima atenção ao que eu dizia, mas eu não me importava com isso. você que eu nunca me importei. e então eu esbarrei no copo e, como você estava ao meu lado, derramei café quente na sua calça e você se assustou, reclamou e voltou a folhear a revista. sabe, eu estava te dizendo coisas importantes que você nunca saberá (nunca não, quem sabe um dia...) porque estava ocupado demais. eu não queria fazer disso um conjunto de memórias amargas até porque a maior parte delas são doces e eu não estou as relatando aqui; só quero que saiba que perdemos muita vida vivendo coisas desnecessárias, momentos desnecessários e nos preocupando com detalhes desnecessários. nem por isso deixamos de ser felizes e ainda resta aquela carta que você me escreveu... ainda resta...
[...] continua

2009-12-10

minhas mãos te confundiram com a fria areia molhada
e eu que pensei estar sonhando
acordei num repente
e descobri (que infortúnio!) minha cama vazia
o lençol marfim amassado
a luminária acesa
o chá, um dia quente, agora gelado
meu peito, um dia vazio, agora cheio de você
das suas palavras
dos seus versos no meu ouvido
da sua boca na minha pele
do seu toque no meu vestido de cetim
de seda
de algodão
de pele
dos seus olhos perfurando meus olhos
atravesando minha alma
desvendando meus pensamentos
e minha negação
não te amo
não te amo
não te...
basta
sua dose de uísque com gelo
seu hálito quente
recitando
amor
amor
amor
sempre amor
você sabe
mas eu insisto em repetir
eu te amo

agora silêncio

agora, silêncio.
preciso ouvir minha música.
a vigésima sexta que mais amo,
(na lista atual).
agora, silencia a tua boca.
preciso ouvir os olhos teus
somente enqaunto tocam os meus.

2009-11-29

eu não preciso

fingir minha alegria em saber que você é tão meu quanto o contrário.
talvez sejamos um par.
ou talvez sejamos dois ímpares juntos, unidos, enlaçados.
não importa.
eu te amo.

tormento

[...]
sábado a noite e você em casa, vivendo seu tormento. uma dose de vodka em uma mão e a garrafa pela metade noutra, você finge assistir um filme ou o telejornal, arrisca um pornô após a meia-noite mas permanece na angústia. o seu telefone toca e seu corpo estremece, pensa "é ela" mas sabe que ela é grandinha, resolvida e orgulhosa demais para te ligar (ainda mais nesse horário). [...] Alice, sempre Alice. você começa a lembrar de vocês dois na varanda, sob a noite paulista chuvosa e abafada, em um janeiro febril. e nada te lembra amor. apenas prazer e noites fertéis em uma cama que nunca estava arrumada, em uma apartamento que exalava paixão. PAIXÃO, e só. você permanece esperando que ela volte, que ela ligue, que ela obedeça, que ela cresça e resolva sossegar ao seu lado mas o que ela menos quer é sossego. alcool, sexo, música e arte. arte no corpo, arte nos olhos, arte na essência e nas atitudes de Alice, artista nata. ela nasceu do prazer, no prazer morrerá. você sabe que foram feitos uma para o outro e também não foram. é uma contradição.

2009-11-23

feeling.

uma imensidão em mim.
talvez seja o êxtase alcançado ao perdoar e receber o perdão.
como a hóstia consagrada que nos salva até o próximo domingo, livra-nos dos pecados de uma semana para que estejamos livres para pecar na seguinte.
essa imensidão talvez dure apenas uma semana.
ou um mês.
não sei.
e é uma não saber maravilhoso.
ah, o êxtase da ignorância.
aliás, além da imensidão, sinto uma deliciosa sensação de prazer em meus dedos quando tocam as teclas formando a palavra êxtase.
ouça, Ê X T A S E.
é suave e doce, um pouco doentio.
eu sinto chegar algo próximo a mim.
deve ser a chuva.
o brainstorm.
a loucura.
ah, como é bom sentir essas palavras viajando em minha mente, confundindo-me inteira como se eu não soubesse quem sou, por um momento. ou dois.
talvez eu não saiba mesmo.
olha, a porcelana límpida sorri para mim. e me diz: "boa sorte!"
e a sorte do dia diz: "a ausência total de humor deixa a vida impossível."
meu Deus.
eu sinto fibra em meu corpo, sinto sangue, sinto gosto. e sei se é bom!
OUÇA! EU SINTO!
eu sei a diferença, eu sei a equidade, eu sei o tudo e o nada, a centelha, a janela, o fogão, todos me fazem sentir e eu os sinto. e sei que sinto!
pois não louca.
ou sou.
devo ser.
eu adoraria ser louca.
assim, ao menos não teria de viver em justificativas.
neste momento, finjo não sentir nada. e eu sei que sinto a farsa, a omissão do sentimento.
como quando há um beijo e não tocam sinos, nem brota um ramo de flores de nome estranho sobre sua cabeça, mas você sente (e sabe) que o beijo é uma farsa.
chamo isso de hipocrisia dos amantes.
você não quer o amado, tampouco o amante.
mas não sabe. não sente.
por isso, finge para os dois.
pior coisa que há, a farsa.
a mentira.
eu sinto a mentira em mim como um vento gélido que pode até cortar.
e ela me corta.
ELA ME CORTA.
meu sangue não flui, não vejo nenhuma gota no chão.
estou vazia.
é o fim.
o fim.
O FIM.

o melhor de mim.

o melhor de mim é o que ainda não sou. é a transformação, é o que virá, é o que ainda está por acontecer. o melhor de mim são minhas feições naturais, minha face abstrata e meus olhos difíceis de compreender. o melhor de mim são meus defeitos. o melhor de mim é a minha carne fraca, pecadora nata que sou. o melhor de mim é a mentira, é o falso amor, o desamor, o ódio. o melhor de mim é a minha humanidade, é ser gente, pessoa, bicho, monstro, poeta, não-sei-o-quê. o melhor de mim é a minha palavra. o melhor de mim sou eu.