2009-07-12

06:39


Acordei cedo numa tentativa idiota de fazer o dia durar mais, nunca dura. Em todo caso, no auge da preguiça, permaneci em minha cama afirmando que o tempo dura exactamente o tempo que ele deve durar. Não existe tempo arrastado, concluí. Isso é coisa da cabeça de gente apaixonada por outra gente ou por outra coisa, sei lá. Já são seis-horas-e-trinta-e-nove-minutos, só não me pergunte os segundos pois meu celular não diz. Aliás, tenho que deixar essas manias, celular afinal, não diz coisa alguma. E a hora passa e o frio aumenta. Meus pés doendo. Curioso, tudo isso. Não sei, acho que vou pensar em alguma coisa ou em coisa alguma. Vou deixar a palavra entrar em mim de novo e tomar o lugar que é dela, vou deixar ela se instalar e fazer moradia nessa casa sem colchões. Me encolho sobre as cobertas não pelo frio. É a palavra vindo que me causa arrepios. Eu tenho receio do quê farei quando ela chegar, quase enlouqueci, quase não voltei do último brainstorm. O brainstorm é como uma chuva de verão. Terei de pensar nisso, esse pensamento já está pronto, evitá-lo será pior. O brainstorm é como uma chuva de verão. Num momento você para no meio da rua e olha para o céu, tentando vê-lo através dos edifícios-monstro. E lá estão o céu azul-calcinha. Ou azul chiclé de hortelã, você escolhe. De repente, tudo escurece e parece noite, eclipse, fim do mundo, cinema ou no quê a sua mente associar. Uma gota de água toca o seu rosto. Ah, esqueci de dizer que isso tudo acontece extremamente rápido. Não o tempo que passa rápido, os acontecimentos. Quando você se dá conta, já está encharcado. A chuva de verão inunda você. Não vou mais chamá-la de chuva e sim, de tempestade. A tempestade envolve você. Depois de molhado, ela te acompanhará por um longo tempo. É uma questão lógica: você toma chuva, você fica molhado, você pega gripe, a tempestade está viva em você. A gripe do brainstorm é isso. Isso que você lê. É neste exacto momento que meus dedos mal conseguem descansar, meus dedos doem, meus dedos faiscam. E minha mente parece que vai explodir, é muito, muito, muito. Tenho receio em não ser fiel a tudo que vejo pois o brainstorm também é isso: visão. E vejo tudo o que meus 2,5 graus de miopia não conseguem ver sós. Vejo toda a imensidão do mundo e das palavras, as coisas todas juntas e separadas que formam e desformam, transformam, modificam-se, criando o novo e o velho mais uma vez. É uma criação sem fim. Não há como parar. Ao sentir a primeira gota, você tem a impressão de que choverá o ano inteiro. Mas da mesma forma que ele vem, vai. Rápido. Fugaz. Chega a ser cruel pois você acaba de ver o mundo e, de repente, a luz se apaga, os óculos se partem, os olhos giram na órbita invisível e nada mais se vê. Permaneço em estado de graça, como um doente que acaba de saber que não mais o é. Como uma planta que descobre ser árvore. Como o universo que descobre ser infinito. Não há fim, não se sente o fim, o fim não é. Não sei explicar. Apenas acaba. Mas acabar parece diferente de fim. Parece apenas momentâneo. Sinto que, a qualquer momento, voltará a chover. Desejo estar preparada e ter em mãos papel, caneta, luz, alma e força para aguentar. Mas nunca se está. Nenhuma força é suficiente. Você apenas recebe, vê, sente. E logo, passa. Deve ser por isso que não carrego guarda chuva. A chuva se vai mas a palavra fica. Olho meu celular: 06:40.

4 secretária eletrônica:

Douglas disse...

nossa..
perfeito
simplesmente perfeito
se você soubesse como me senti lendo seu texto ou sua tempestade..

muito bom mesmoooo!!
parabéns.

beijo

Emer disse...

Meu querido diário, eu queria dizer que eu adorei muito o texto "06:39" da Rafaella, queria dizer também que esse texto só não me fez pensar/refletir mais porque estou morrendo de sono, e fugi um pouco da cama só para ler esse grandioso e ótimo texto. Tenha uma boa dia, obrigado.

Jaqueliny Euzébio disse...

Cara, cara.... CARA!
Que que foi isso?
Acho que a tempestade inundou a minha casa nesse momento.

Ana disse...

Chuvas de verão são imprevisíveis, mas na maioria das vezes, decepcionantes.